segunda-feira, 10 de agosto de 2015


'no topo da unité d'habitation', Marselha.

(PT)
o teu tronco é um estremecimento mudo da terra

por certo a noite limpa
traz a invenção de um sonho novo
a buganvília como um nómada vagaroso
as colinas a lembrar que os dias
não mais serão afluentes de seca
floriram já
quando o sorriso das crianças 


selaste os meus lábios com um beijo

(ES)
tu tronco es un silencioso temblor de la tierra

por cierto la noche limpia
trae la invención de un sueño nuevo
la buganvilla como un nómada sin prisa
las colinas para recordar que los días
no serán más afluentes de la sequia
han florido ya
cuando la sonrisa de los niños 

sellaste mis labios con un beso

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Casablanca (Michael Curtiz), 1942
(PT)
Selaste os meus lábios com um beijo
E nunca mais pudeste sair.
Apenas um
E te fizeste eterna

Escuto em silêncio
a tua sombra na minha cabeça.
É hora de despertar.
Pensas que só os pássaros podem voar?
Sobe-te comigo.
Vou levar-te a um lugar.

Recordo a imensidade do teu beijo.
Do teu cheiro.
Do teu corpo.
Do teu sorriso.
Da forma eterna com que me olhas.
De tudo o que me faz sentir-te tão perto
e me condena ao saber-te tão longe.

Demasiado tarde
para esquecer.
Perdi-me na retorica
dos signos que te escondi.
Precipita-se a dúvida:
Não sei como vieste.



(ES)
Sellaste mis labios con un beso
y nunca más pudiste salir.
Apenas uno
y te hiciste eterna.

Escucho en silencio
tú sombra en mi sien.
Es hora de despertar.
¿Piensas que solo los pájaros pueden volar?
Súbete conmigo.
Te llevo a un lugar.

Recuerdo la inmensidad de tu beso.
De tu olor.
De tu cuerpo.
De tu sonrisa.
De la forma eterna con que me miras.
De todo lo que me hace sentirte tan cerca
y me condena al saberte tan lejos.

Demasiado tarde
para olvidar.
Me perdí en la retorica
de los signos que te escondí.
Se precipita la duda:

No sé cómo viniste.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

D. A. Harvey BRAZIL. Bahia. 2002
(PT)

não sei como vieste
mas esta noite sonhei que voltava a ver-te
o sorriso como uma rua alegre,
a aura intacta de quem sabe.

por aí arde a cidade
já o vi no noticiário
a favela num chinfrim
voltada para as estatuetas fluorescentes da virgem
a  retoma da chacina por respostas
indigente insaciável de palavras.

(ES)

no sé cómo viniste
pero esta noche he soñado que volvía  a verte
la sonrisa como una calle alegre,
el aura intacta de quien sabe.

Por ahí arde la ciudad
ya lo vi en el telediario
la chabola en alborozo
de frente a las estatuillas fluorescente de la virgen
la retoma de la matanza por respuestas
indigente insaciable de palabras

sábado, 23 de maio de 2015




The Gold Rush (1925), Charles Chaplin


(PT)

Indigente insaciável de palavras
Deixas pegadas no silêncio.
Preparas a tua ausência.

Disparas um sorriso
Com a inocência indiscreta
Do teu olhar.
Escondes os teus sinais,
Envolvidos em gestos e parágrafos.

Não me deixes
uma nota na retina!

Assombra o teu corpo
Na ansiedade dos meus lábios
E recorda o cheiro das minhas mãos.

Não me condenes.
Se os meus gestos denunciam pecado.

Busca-me no incerto do ocaso
E quando não saibas de mim
Pergunta ao indigente insaciável de palavras
Ele te dirá:
- Dizem por aí que a as suas mãos curam.

(ES)

Indigente insaciable de palabras.
Dejas huelas en el silencio
Planteas tu ausencia.

Disparas  una sonrisa
con la inocencia indiscreta
de tu mirada.
Esconde tus señales,
envueltos en gestos y párrafos.

¡No me dejes una nota
en la retina!

Asombra tu cuerpo
En la ansiedad de mis labios
Y recuerda el olor de mis manos.

No me condenes.
Si mis gestos denuncian  pecado.

Búscame en el incierto del ocaso.
Y cuando no sepas de mí
Pregunta al indigente insaciable de palabras.
El te dirá:
- Dicen por ahí que sus manos sanan.





segunda-feira, 11 de maio de 2015

Death of a loyalist militiaman; Robert Capa, Spain, 1936. 
(PT)

dizem por aí que a as suas mãos curam
o céu brada que as pedras lhe obedecem
que fala o idioma das aves
e controla a violência dos ventos

não foram raras as vezes
interpelava-o sempre antes de adormecer:
-ei! sim, tu! olha-me para estes desgraçados
a matarem-se de fome, de raiva, de ódio
a aniquilarem as searas
a borrarem as tuas pinturas
os teus mares

ria sempre.
uma gargalhada rasgada de quem transige
de quem sabe que o abismo
é ainda uma droga leve
vazio. oco. oposto.

(ES)

Dicen por ahí que sus manos sanan
el cielo clama que las piedras le obedecen
que habla el lenguaje de los aves
y controla la violencia de los vientos

no fueron raras las veces
lo interpelaba siempre antes de caer dormido:
-hey! sí, tu! mira estos desgraciados
matándose de hambre, de ira, de odio
aniquilando los campos
borrando tus pinturas
tus mares

reía siempre.
una carcajada rasgada de quien traspasa
de quien sabe que el abismo
todavía es una droga leve

Vacío. Oquedad. Reverso.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Aniki Bobó - Manuel de Oliveira (1942)

(PT)

Vazio. Oco. Oposto.
Não ficou nada por dizer.
Saiu disparado
investindo contra a própria sombra.

Sabia que nunca poderia esquecer.
Tinha esse estranho jeito
de transformar o esquecimento em saudade.

Levou a silhueta ébria
para um refúgio distante
fugindo de um feitiço segredado.

Um fragor ameaçou o seu silêncio,
e o fantasma soprou sonhos caducados.

Já não há cordura
que apazigue o desencanto.
Só ficou o céu ocre
neste lugar de chuvas

 (ES)

Vacío. Oquedad. Reverso.
No quedó nada por decir.
Salió disparado
invistiendo contra su sombra.

Sabía que jamás podría olvidar.
Tenía esa extraña costumbre
de transformar el olvido en recuerdo.

Llevó la silueta ebria
para un refugio lejano
huyendo de un hechizo murmurado.

Un estallido amenazó su silencio,
el fantasma sopló sueños caducados.

Ya no hay cordura
que apacigüe el desencanto
solo queda el cielo ocre
en este lugar de lluvias

segunda-feira, 4 de maio de 2015

G.B. ENGLAND. Liverpool. A rubbish dump near New Brighton. 1994.
(PT)

Neste lugar de chuvas
Ganha a nuvem forma sórdida
Rabujam os pássaros
Palavrões do mundo
Caminhos de punição

As glicínias vão medrando
Beijam os muros
Olhos postos na terra
Nuas da sua circunstância

O Inverno volta,
Fundeia a sua caravela junto aos meus tornozelos
E com Ele
Também a poesia
Chegou em silêncio

(ES)

En este lugar de lluvias
La nube gana una forma sórdida
reclaman los pájaros
Palabrotas del mundo
Caminos de punición

Las glicinas van prosperarando
Besan los muros
Ojos puestos en el suelo
Desnudas de su condición


El Invierno vuelve,
Fundé  su carabela junto a mis tobillos
Y con Él
También la poesía
Llegó en silencio

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Metropolis (1927) - Fritz Lang




(PT)

Chegou em silêncio
sem tempo nem pressa.
A sua pele branca recordava pétalas de camélias e
o seu perfume confundia-se com amendoeiras em flor.

Encontrei-a já sem vida
Sorvi-lhe as lágrimas

Fugiu com medo de se perder
Tem vertigem

Não fujas!
Não sabes que o meu corpo se inquieta
Quando se afasta do teu?

Cavo uma cova e enterro a alma
Nem o sangue consegue escapar à ira da ausência

Caminho sozinha
num bosque sem luz
e cada vez que entro para me perder
acabo sempre encontrando
o que queria esquecer.

Voltamos a começar.
O de sempre.
Sabe-me a vinho a boca.


(ES)

Llegó en silencio
sin tiempo ni prisa.
Su piel blanca hacía recordar pétalos de camelias y
su perfume se confundía con almendros en flor.

La encontré ya sin vida.
Sorbí sus lágrimas.

Selló mis labios con un beso.

Huyó con miedo a perderse.
Tiene vértigo.

¡No huyas!
¿No sabes que mi cuerpo se inquieta
cuando se aleja del calor del tuyo?

Excavo un agujero y entierro el alma.
Ni la sangre puede escapar a la ira de la ausencia.

Camino sola.
en un bosque sin luz.
Y cada vez que entro para perderme
solo acabo encontrando
lo que he querido olvidar.

Volvemos a empezar.
Lo de siempre.

Me sabe a vino la boca.